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Achei isso na net hoje. Que engraçado, eu nem lembrava que havia feito esses desenhos. É interessante como o fluxo de aprendizagem se renova e acabamos esquecendo o desenho em si e ficamos apenas com a experiência do desenho. Foram feitos ano passado, quando eu fui lançar a MD em NYC. Cheguei no dia 14 de Novembro a noite e dia 15 tinha essa convenção rolando em Nova Iorque, a Big Apple Convention. O Ivan Brandon tinha um estande e eu empilhei umas MDs lá. Aí apareceram dois caras pedindo pra eu desenhar uns sketches. Eu nunca tinha feito, nem sabia o que cobrar. Pensei um preço lá e os caras toparam. “Então você poderia desenhar uma mina com uma espada pra mim?”, disse um, enquanto “Eu quero um cara fortão com duas armas!”, o outro. “Ok”, eu. Foi divertido, mas não gosto muito de fazer desenhos encomendados, sei lá porque. Não me sinto confortável com a idéia mesmo já tendo visto lindos trampos de “commission” feitos por artistas mais do que fodões. E o pior é que não tem muita diferença entre fazer um desenho encomendado por um admirador e desenhar pra DC ou Marvel ou outras editoras, por exemplo. Eu nunca havia pensado sobre o assunto até fazer esses dois desenhos. Não sei se não gosto de fazer desenhos assim pelo fato de você ficar no alcance de qualquer pessoa que tenha dinheiro pra pagar por um desenho seu e que por causa disso ele pode escolher o que vai ser desenhado e que pode te dar uma boa dor de cabaça dependendo do cliente. Ok, já desenhei o Constantine pra Vertigo e foi uma ótima experiência. Mas o roteiro do Azzarello veio super aberto e cheguei a incluir dois quadros em cada uma das páginas e senti bastante liberdade. O Azz só disse que se eu respeitasse o seu “page breakdown” a gente estava OK, que podia incluir o que eu quisesse em prol do storytelling. Agora vou ter uma outra experiência parecida, só que não consigo encarar como um trabalho sob encomenda. A Marvel me convidou pra escolher qualquer personagem deles (tipo, qualquer um dos 5.000, pouca opção) pra escrever e desenhar uma história com liberdade total de criação. Escolhi um bem famoso pro choque da mudança ser mais legal. Ok, certamente não será a coisa mais chocante do mundo, mas um choquinho pode ser que role, espero. O roteiro já está pronto e o design do personagem também. Assim é quase como se o personagem fosse meu, então é óbvio que eu me senti a vontade para fazer.
Hoje em dia eu tenho uma certa restrição em aceitar desenhar o que me pedem, seja uma editora ou um admirador. Deve ser porque trabalhei minha vida inteira com publicidade e quando sou “mandado” ou tenha um cliente para aprovar, já torço o nariz na hora. Quando o trabalho é legal, com gente legal envolvida, tipo ilustrar o conto do Ruben Fonseca pra Playboy, faço feliz da vida. Apesar de eu não gostar do resultado desse trabalho – da minha parte eu digo – foi legal de fazer porque a galera da Playboy é classe A! Mas geralmente na publicidade ou até mesmo na área editorial, sempre me frustrei com as direções dos diretores de arte. 99% não sabem NADA e são cegamente arrogantes a ponto de nunca deixarem o artista com quem estão trabalhando sugerirem um caminho melhor do que eles mesmos estão propondo, que quase sempre é uma idéia vaga – aí fica aquela malandragem de fazer o artista desenhar MIL sugestões sem liberdade criativa e refações até ficar parecido com algo que eles já tenham visto, é claro – ou uma cópia mal encoberta de alguma outra coisa. Eu já trabalhei como diretor de arte durante anos e sei bem do que eu estou falando. Então, um recado para os diretores de arte: Primeiro, escolham BEM o artista que vocês querem trabalhar. Segundo, vocês precisam aprender com os artistas. Vocês só são diretores de arte porque amam arte – a maioria nem tanto na verdade, amam o status e o cartão com o “diretor” escrito, o que não significa porra nenhuma se o cara não tem a mãnha- e queriam muito ser artistas também – e muitos tem alma de artista e geralmente são esses que entendem do que estão falando- então, sejam humildes e deixem o artista cooperar criativa e artisticamente em vez de tratá-lo apenas como mão de obra pra justificarem o status de diretor. Assim o trabalho só vai melhorar e talvez sua carreira também melhore. E parem de copiar os gringos, isso é feio e todo mundo do seu meio sabe que você está copiando.
Pensando bem, acho que o segredo é sempre se focar no fluxo de criatividade e na experiência da aprendizagem pra fazer desenhos encomendados. O desenho pode não ser uma expressão pessoal sua no fim das contas, mas ninguém te tira o que você aprendeu com aquele desenho e com certeza essa experiência vai aprimorar o seu trabalho pessoal.
Abraço,
R. Grampá
PS: Eu tava com saudades desse blog.
16 Comments so far
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E nós com saudade de novidades suas! Um abraçao!
Comment by Rdelton November 28, 2009 @ 7:49 amAdmiro muito o teu trabalho,Rafa!Desde que vi na Bang Bang,pirei na narrativa.Fico muito feliz em saber que pessoas como você estão fazendo a diferença na história dos Quadrinhos,é inspirador!Um dia chego lá,Abs
Comment by Rafael Anderson November 28, 2009 @ 12:58 pmSabias palavras Grampá.
Mas a minha pergunta é: Vc faz comissions?
E esses “sketches” lembra muito os personagens do FW, foi uma coincidências, ou eles meio que nasceram daí?
Forte abraço e muito sucesso!
Comment by Fabio Catena November 28, 2009 @ 1:46 pmCaraca! quando vi no flickr achei q eram personagens do FW…
E ótima lição de humildade para os diretores de arte…
Saludos!
Comment by atakcorp November 28, 2009 @ 2:30 pmCara, concordei com tudo que você escreveu!
Comment by Edde November 28, 2009 @ 3:05 pmJá estou com 39 anos e só de pensar em ‘briefing’ tem me dado calafrios ultimamente!
Tive experiências ruins com as poucas commissions que fiz.
Comment by Roger Cruz November 28, 2009 @ 4:41 pmAlguns faziam mais exigencias que editores, pediam correções ou não gostavam do resultado e simplesmente desistiam. Eu até tentei o processo “infalível” de mandar layout para aprovação e lápis final.
Desisti de fazer commissions por esses motivos e pelos que vc citou também.
Ótimo texto, Rafael.
Pois é, Roger, talvez esse seja um dos motivos pelo qual não me sinto a vontade com commissions. Que petulância desses caras, heim? A idéia que eu tenho é que o artista tem que ser respeitado pelos caminhos que escolhe num desenho e eu tento com que o menor número de pessoas possível tenha acesso para discutir minhas decisões. Então, se um commission pode dar abertura para interferências no meu trabalho de qualquer um com dinheiro, não faço.
Grande abraço!
Comment by Rafael Grampá November 28, 2009 @ 6:19 pmGrande reclamação Grampá. Precisa escrever mais vezes.
Comment by Marcelo Pliger November 28, 2009 @ 9:33 pmabs
Cara, conheci seu trabalho ano passado e fiquei até assustado de quão parecidas são nossas referências, tenho até receio de que achem que eu o copio. Esse texto me mostra que temos outros pontos em comum, pois compartilho da mesma opinião. Acho legal vc incentivar a autenticidade. Abraço
Comment by Anderson Ventura November 29, 2009 @ 5:09 amcara, isto foi só um sketch?! caaaralho, foda, phoda, PHODAA.de fato, trabalhar com interferência não é nada legal.
Comment by ary rocha November 30, 2009 @ 12:47 amIRRÁ!
Comment by Rentz! November 30, 2009 @ 1:41 amHoje eu entendo!
A cerca de 2 anos e meio tivemos uma breve conversa no MSN, onde vc me falou sobre essas questões da liberdade do artista. Na época eu estava trabalhando pela primeira vez com publicidade, tava loko pra entrar na Lobo, e não compreendi mto bem o q vc me disse.
Hoje, bastante frustrado, eu entendo.
Agora estou procurando meu caminho.
Valeu!
Grande Grampá, cara achei que eram pra ser personagens do Furry Water quando eu vi no seu Flickr, bem legais, concordo com o seu ponto vista, e se isso são sketches, vou parar desenhar uashaushaus, abraços,
Pedro C.
Comment by Pedro Cobiaco November 30, 2009 @ 2:20 pmCaraca man!
Pura verdade. As vezes esses diretores nos fazem sentir como uma ferramenta que ele manipula do modo como quer, mesmo contra sua vontade. O pincel pode ser bom, mas se não usado de modo correto, acaba sendo estragado.
Cara, diz aê se não é o Homem Aranha!! hasuhdauahsd Sou apaixonado pelo personagem! Acho que ia ser ducaralho um Homem Aranha no teu traço!
Abração
Comment by Vencys Lao November 30, 2009 @ 3:51 pmesse post poderia se chamar “uma verdade inconveniente”!! incrível como esse problema é universal, tomei a liberdade de passar o link com esse texto pra algumas listas de desenhistas aqui no sul, tipo terapia de grupo!! ah, e os desenhos tão legais tambem!! rsrs!! cara, não consegui ir lá na feira pra falar contigo, correia como sempre, nos avisa quando vier a poa de novo!! grande abraço meu velho!!
Comment by Lisandro November 30, 2009 @ 10:18 pmesse ”famoso” que você escolheu para o trampo da marvel bem que podia ser o aranha eim!!!!
Comment by evandro dias December 1, 2009 @ 12:08 amNão sei qual é o personagem da Marvel que irá desenhar, mas seja qual for, tenho certeza de que será algo que valerá a pena ver.
Comment by Emerson Lopes December 9, 2009 @ 7:35 pmAguardo ansioso pra ver esse material…!
Abraço!