Uma curta reflexão sobre experimentação
April 17, 2009, 12:43 am
Filed under: Uncategorized

Esse texto é para quem realmente gosta de Quadrinhos. Quem não gosta pode achar chato, mas também pode ser que venha a gostar de HQs.

Em 1960, o escritor e poeta Raymond Queneau e o matemático François Le Lyonnais fundaram a Oulipo ( Ouvroir de Littérature Potentielle ou Abertura do Potencial da Literatura ). A Oulipo, na descrição dos próprios criadores eram “ratos que criaram um labirinto do qual se propuseram escapar”. Os fundadores e agregados ao grupo discutiam, como base, os trabalhos de Queneau, em especial o seu “One Hundred Billion Poems”- um livro de dez sonetos nos quais cada linha podia ser lida com qualquer um dos outros sonetos, criando assim um número de variações que Queneau calculava como dez `a décima quarta potência – e “Exercises in Style”, onde o mesmo conto era narrado 99 vezes diferentes. A sociedade cresceu e dois dos membros mais famosos foram o cineasta e novelista Judeu/Francês George Perec e o escritor e jornalista italiano Italo Calvino. A Oulipo foi criada com o fim de explorar as possiblidades criativas de se contar uma história, usando sempre as estruturas básicas, regras e os limites da narrativa como princípio para execícios experimentais. O dito “princípio das restrições”.

Desde a criação da Oulipo, inumeros novos grupos foram fundados sob o princípio das restrições, claramente influênciados pela Oulipo. Alguns exemplos são a Oupeinpo ( Abertura da Potencial da Pintura ), a Oumupo ( Abertura do Potencial da Música ) e a Oucuipo ( Abertura do Potencial Culinário ). Coletivamente, esses grupos são conhecidos como Ou-x-po.

Em 1992, o coletivo de quadrinhistas franceses L’Association criou a Oubapo ( Ouvroir de la Bande Dessinée Potentielle ou Abertura do Potêncial dos Quadrinhos ), sob o mesmo princípio das restrições que todos os outros grupos influênciados pela Oulipo. A Oubapo se propõe a usar os limites das Histórias em Quadrinhos para experimentá-los usando eles próprios. A forma das HQs é um exemplo dessas limitações. Todo mundo conhece a forma de uma HQ, seus quadros separados, seus balões, o texto dentro dos balões, os personagens que guiam as histórias, etc. A Oubapo se propõe a “brincar” com essas regras, pra tentar ir além da própria forma, pra testar as possibilidades que a narrativa pode nos proporcinar. É como se uma rede de TV resolvesse brincar com a estrutura narrativa de uma novela, contando o mesmo capítulo todo dia de formas diferentes, contasse de trás pra frente, mudasse os personagens principais e pontos de vista, e assim por diante. Ou mesmo um grupo de cozinheiros que se propoem a realizar 100 pratos diferentes com apenas 5 ingredientes.

Um dos fundadores da Oubapo, Patrice Killoffer, criou um dos meus álbuns de HQ preferidos. No “Six Hundred and Seventy-six Apparitions of Killoffer“, ele experimenta tirar por completo a divisão de quadros na página, o que resulta numa narrativa totalmente original, sem falar que é uma das sequências de páginas mais lindas que já vi.
killoffer

Ele narra uma história onde ele mesmo é o personagem principal, degladiando-se com seus desejos sexuais ao ponto de vê-los materializados como ele próprio. O resultado são 676 Killoffers vivendo na casa do Killoffer original, acabando com a vida dele.

Nos EUA, a Oubapo também têm os seus tentáculos e um dos meus autores preferidos é o Matt Madden, praticamente um dicípulo do Raymond Queneau, autor do álbum “99 Ways to Tell a Story“, que é basicamente isso mesmo.

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Ele cria uma cena muito simples e mostra que ela pode ser contada de 99 formas distintas.

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Simplesmente genial. É muito divertido e impressionante como ele realmente consegue contar a mesma história 99 vezes de forma completamente diferentes em vários aspectos.

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É um bom guia pra aspirantes a quadrinhistas, cineastas, roteiristas, escritores, montadores e donas de casa.

Aqui no Brasil,não tenho notícia se existe um grupo da Oubapo. Mas temos os nossos autores que se aventuram com os princípios das restrições e vão além da narrativa. O Laerte é um ótimo exemplo disso. Ele conhece como ninguém a estrutura da linguagem dos Quadrinhos e já experimentou diversos caminhos, conseguindo elevar a narrativa à estratosfera. O Rafael Sica também é um novo mestre da estrutura de tiras. Experimenta e vai além. A narrativa de Lourenço Mutarelli já desestruturou o modo como se contava Históras em Quadrinhos no Brasil, experimentando com o lado negro e com a sordidez da narrativa, colocando-a em linguagem de prosa nos balões de suas páginas.

Rafa Coutinho, na antologia “Irmãos Grimm em Quadrinhos”, publicada em 2007 pela editora Desiderata, contou a história da Branca de neve da maneira mais experimental e original que eu já vi – e já li muitas versões, pois me amarro em contos de fadas.

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É como se você estivesse assistindo a um filme em que todas as cenas tem o mesmo tempo, montadas de uma maneira cadenciada, mostrando sempre apenas o mínimo porém necessário para o entendimento de cada cena. Usando artifícios como repetição e textos monossilábicos, Rafa Coutinho provou o sabor do poder da narrativa contando uma história já contada infinitas vezes e que pode ser contada de novo e ainda assim ser original.

Em 2006, o Gabriel Bá, o Fábio Moon, a Becky Cloonan, o Vasilis Lolos e eu tentamos fazer algo diferente em termos de narrativa. Fizemos uma revista independente entitulada “5″- já pedindo perdão pela auto-referência. Não foi proposital, mas instintivamente nós também nos baseamos na idéia dos princípios das restrições e tentamos quebrar a narrativa de alguma maneira. A “5″ conta histórias inventadas sobre nós mesmos, um dia imaginário em que um autor deveria contar sobre o outro autor, intercaladas e lincadas por simbolismos e referências das próprias histórias. Nós ganhamos o Eisner Awards – o subtitulado Oscar dos Quadrinhos – com essa publicação. Não acho que ganhamos esse prêmio porque fizemos algo experimental, até acho que os jurados do Eisner não deram muita bola pra isso, mas o certo é que experimentamos algo diferente do que fazíamos. E como ninguém aqui gosta de viver no passado, vamos de volta pra prancheta pois ainda existem infinitas maneiras de se contar histórias, e eu quero contar algumas delas.

Abraço,

R. Grampá

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28 Comments so far
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Caramba, eu não conhecia toda essa história! Animal mesmo, viajei no post.
Experimentar é sempre muito bom. O que eu percebo é que a maioria dos artistas acaba relaxando depois de uns anos, ficando numa zona de conforto eterna. Gostei do artigo!

Comment by Mário

Existe uma oubapo latino-americana, embarcando os autores inclusive de língua portuguesa. O endereço é este: http://tahipo.blogspot.com/ , que é chamado de Taller de Historieta Potencial.

Comment by Ricardo Sanchez

Grande notícia! Valeu Sanches!

Comment by Rafael Grampá

depois de 3 meses enrolando, enviei no fds um texto q escrevi a partir de uma entrevista com o editor da asso, fundador do oubapo.
ano passado, apresentei um trabalho sobre o oubapo num simposio de literatura.
sou APAIXONADA por isso.

Comment by mc

Bacana! No filme Helvetica http://www.helveticafilm.com/ um dos designers entrevistados Wim Crouwel fala tambem sobre isso… trabalhar com limitacoes… e ele comenta que simplesmente nao consegue mais trabalhar se nao lhe derem limitacoes… o grid que ele auto impoe ao seu trabalho faz com que aquela seja a sua arena e eh la que ele faz o seu jogo. Recomendo.
Abracos.
M.

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Comment by Mauricio Pommella

Olá:

Meu nome é Berliac, eu sou o coordenador geral do Workshop Latino-Americano Comic potencial.

Durante mais de um mês eu passei um convite para os participantes do projeto, mas infelizmente eu não conheço muitos escritores do Brasil.

Todos estão convidados a porticipar do projeto Oubapo Latinoamerica.Para ver as condições visite nosso website:

http://tahipo.blogspot.com

(desculpe para o meu muito pobre Português, estou usando o Google Translator!).

Comment by Berliac

Grampa, existe uma versao da america latina, http://tahipo.blogspot.com/

E de brasileiro participa apenas eu e o DAniel Bueno.

Comment by tiago

Por coincidência, li 676 Apparitions essa semana. É genialmente louca.

E, cara, se pudesse, passaria o dia falando da HQ do Coutinho com a Branca de Neve. A primeira vez que li, voltei e reli mais umas 3 vezes. Não acreditava no que tava vendo, de tão sensacional.

Comment by ericoassis

Ah, e não esqueceria, nessa turma experimentalista (e experimentalista boa, porque há vários sem direção), do Anders Nilsen! Se ainda não leu, pegue tudo que puder dele. Principalmente DONT GO WHERE I CANT FOLLOW, que é arrasadora, e uma historinha que ele fez pra MOME que me causou a mesma coisa que a HQ do Rafa Coutinho. Tem um trecho aqui: http://madinkbeard.com/blog/archives/anders-nilsen-in-mome

Comment by ericoassis

Cara… acho que Will Eisner usava um pouco dessa técnica sem se dar conta!

Comment by Bruno Ilex

ah… Até fiquei meio deprê… Queria mais tempo livre prá também poder brincar com isso também… :(

Comment by DS

o pior é que tem gente que enxerga o experimentalismo do Laerte, por exemplo, como perda de rumo. vou atrás hoje de Irmãos grimm em quadrinhos – compra adiada desde o lançamento.

Comment by lielson

Fala Érico! Adoro o Nilsen! Abraço!

Comment by Rafael Grampá

Fala Berliac! Muito bacana saber que tem gente explorando os limites por essas bandas. Imagino que a Tahipo seja inspirado na Oubapo, e não o braço da Oubapo latino americana, certo? Vou deixar teu convite aí nos comments pra quem se interessar.

Comment by Rafael Grampá

E vale lembrar que a Oubapo não é um movimento nem uma instituição. É um grupo de estudos, de discussão, uma forma de pensar, explorar e brincar. Brincadeira pra gente grande.

Comment by Rafael Grampá

Leio quadrinhos desde sempre, faço quadrinhos desde sempre, conheço um trilhão de gente que faz e aprendi outro trilhão de coisas úteis. Mas até agora não tinha lido sobre o que você escreveu e me foi muito útil, só reforçando o que eu já sabia de que não importa o quanto a gente estude, impossível chegar a um ponto em que não existe mais o que aprender e fico MUITO feliz quando descubro coisas novas, mesmo que historicamente não sejam assim tão novas. Abração e valeu!

Comment by Felipe

Legal, Felipe. Sim, históricamente não é nada novo, é um pensamento dos anos 60. Esse post eu fiz originalmente para o meu blog da MTV, que é um apêndice da minha coluna na TV, no Notícias MTV. Essa coluna é o único espaço para HQs em rede nacional na TV – acho eu – então, estou aproveitando pra soltar um pouco de informação decente sobre HQs pro público que assiste a MTV. Acho que nunca haviam falado sobre a Oubapo na TV aqui no BRasil, e por isso resolvi falar. Abraço!

Comment by Rafael Grampá

minha parada predileta do oubapo, de longe, é a seguinte:

http://www.tomhart.net/oubapo/archive/alphabet/daupo/index.html

fez parte do desafia “alphabet city”, que cada quadro tinha que ter correspondência com a sua letra do alfabeto. pra mim, é um dos exemplos claros que existem certos recursos narrativos próprios dos quadrinhos.

não sei se foi coincidência, ou se vc se inspirou nisso, mas o matt madden fez um post sobre o oulipo um dia antes de vc.

tem um livro do oulipo lançado no brasil que é bacana: “a coleção particular” do georges perec

Comment by andrei

vivendo, lendo e aprendendo…
axo hq uma arte infinita, pois realmente se pode fazer tudo com ela. e sobre o q escreveu serviu pra dar ainda mais infinidade a essa arte

parabéns!

Comment by PJ

Um bom exemplo de experimentação da linguagem de web comics. Brincando com os limites da internet.

http://www.iamnotanartist.org/index.html

Comment by Rafael Grampá

Muito Massa, é otimo ver esse tipo de coisa, vi um exemplo muito bom de umas experimentações em um livro do Scott McCloud. Umas perguntas: onde consigo o HQ do Rafa Coutinho e a “5″ que você citou? Ah e também a Samba, que ouvi alguns bons comentários!
Muito Obrigado, um abraço.

Comment by Rafa Santos

Bem interessante, não conhecia esse “movimento” por assim dizer, mas parece ser mesmo uma boa forma de exercitar a narrativa… Digo, básicamente seria só estruturar um arco de idéias rapidamente e ir elaborando formas mais fluídas de apresentar…

Sinceramente acho que isso é melhor para um roteirista/desenhista que já consegue imaginar a história pro completo, como escritor (E somente escritor, meu traço e m#$@ em um papel higiênico tem o mesmo valor artístico), é um pouco diferente, já que ai vai mais da simbiose com quem quer que queira desenhar o que escrever, então é uma parceria mesmo, mas acho algo bom de se desenvolver em ambos os lados…

Comment by Antonio Tadeu

Rafa, se você der um google em qualquer uma dessas HQs que eu citei, você vai achar! Abs

Comment by Rafael Grampá

Foda o post, valeu por mostrar isso. Deu curiosidade de ver o álbum do Madden. Nem sei se é bom tentar fazer algo assim só por fazer, o resultado pode ser desastroso, mas no mínimo, é um exercício extremamente enriquecedor.

Comment by Henrique Rodrigues

Vi a materia na MTV.

Sim. Aquele é o unico espaço que se fala em HQ na TV aberta. Achei demais a materia, que além de me acrescentar, e muito, me fez ver o potencial dos quadrinhos europeus e o quanto será interessante pra mim ir atrás deles.
Sempre achei muito interessante a possibilidade de pensar em novas formas de narrativa. O quadrinhos oferecem isso de uma forma bem clara e de fácil percepção.Penso em algum dia usar desse artifício,mas acho que este é mais interessante no decorrer da historia, em algum momento especifico da trama, do que em toda ela. Levar esse pensamento por toda historia pode limitar o quadrinho a leitores experientes, e isso pode até ser ruin.

Abraço! e continue o ótimo trabalho na MTV!

Comment by Rafael Pereira

Eu queria fazer uma história que fosse o equivalente narrativo as imagens do Escher… Mas acho que ainda está um pouco longe da minha capacidade hahaha

Comment by Antonio Tadeu

A idéia é muito boa, mas gostaria de ver um grupo aqui no Brasil realizar isso e – o que é mais difícil – ter público.

O problema é que aqui as pessoas valorizam demais os desenhos e a fama dos personagens e acabam se esquecendo do resto.

Para aumentar as referências do texto, eu citaria Antonio Amaral, que até onde eu conheço, é o único cara no muno que faz HQ abstrata e a leva dos quadrinhos poéticos como Gazy Andraus, Henry Jaepelt, Edgar Franco etc.

Comment by Alexandre Manoel

Fala Rafael, blz?!
cara, nao to achando esse livro “six hundred” em lugar algum… Porra, voce tem alguma dica? Na amazon, ja fiz 3 tentativas, mas nenhuma rolou…
Valeu!
Bração

Comment by Andrei Bressan




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