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Esse texto é para quem realmente gosta de Quadrinhos. Quem não gosta pode achar chato, mas também pode ser que venha a gostar de HQs.
Em 1960, o escritor e poeta Raymond Queneau e o matemático François Le Lyonnais fundaram a Oulipo ( Ouvroir de Littérature Potentielle ou Abertura do Potencial da Literatura ). A Oulipo, na descrição dos próprios criadores eram “ratos que criaram um labirinto do qual se propuseram escapar”. Os fundadores e agregados ao grupo discutiam, como base, os trabalhos de Queneau, em especial o seu “One Hundred Billion Poems”- um livro de dez sonetos nos quais cada linha podia ser lida com qualquer um dos outros sonetos, criando assim um número de variações que Queneau calculava como dez `a décima quarta potência – e “Exercises in Style”, onde o mesmo conto era narrado 99 vezes diferentes. A sociedade cresceu e dois dos membros mais famosos foram o cineasta e novelista Judeu/Francês George Perec e o escritor e jornalista italiano Italo Calvino. A Oulipo foi criada com o fim de explorar as possiblidades criativas de se contar uma história, usando sempre as estruturas básicas, regras e os limites da narrativa como princípio para execícios experimentais. O dito “princípio das restrições”.
Desde a criação da Oulipo, inumeros novos grupos foram fundados sob o princípio das restrições, claramente influênciados pela Oulipo. Alguns exemplos são a Oupeinpo ( Abertura da Potencial da Pintura ), a Oumupo ( Abertura do Potencial da Música ) e a Oucuipo ( Abertura do Potencial Culinário ). Coletivamente, esses grupos são conhecidos como Ou-x-po.
Em 1992, o coletivo de quadrinhistas franceses L’Association criou a Oubapo ( Ouvroir de la Bande Dessinée Potentielle ou Abertura do Potêncial dos Quadrinhos ), sob o mesmo princípio das restrições que todos os outros grupos influênciados pela Oulipo. A Oubapo se propõe a usar os limites das Histórias em Quadrinhos para experimentá-los usando eles próprios. A forma das HQs é um exemplo dessas limitações. Todo mundo conhece a forma de uma HQ, seus quadros separados, seus balões, o texto dentro dos balões, os personagens que guiam as histórias, etc. A Oubapo se propõe a “brincar” com essas regras, pra tentar ir além da própria forma, pra testar as possibilidades que a narrativa pode nos proporcinar. É como se uma rede de TV resolvesse brincar com a estrutura narrativa de uma novela, contando o mesmo capítulo todo dia de formas diferentes, contasse de trás pra frente, mudasse os personagens principais e pontos de vista, e assim por diante. Ou mesmo um grupo de cozinheiros que se propoem a realizar 100 pratos diferentes com apenas 5 ingredientes.
Um dos fundadores da Oubapo, Patrice Killoffer, criou um dos meus álbuns de HQ preferidos. No “Six Hundred and Seventy-six Apparitions of Killoffer“, ele experimenta tirar por completo a divisão de quadros na página, o que resulta numa narrativa totalmente original, sem falar que é uma das sequências de páginas mais lindas que já vi.

Ele narra uma história onde ele mesmo é o personagem principal, degladiando-se com seus desejos sexuais ao ponto de vê-los materializados como ele próprio. O resultado são 676 Killoffers vivendo na casa do Killoffer original, acabando com a vida dele.
Nos EUA, a Oubapo também têm os seus tentáculos e um dos meus autores preferidos é o Matt Madden, praticamente um dicípulo do Raymond Queneau, autor do álbum “99 Ways to Tell a Story“, que é basicamente isso mesmo.

Ele cria uma cena muito simples e mostra que ela pode ser contada de 99 formas distintas.

Simplesmente genial. É muito divertido e impressionante como ele realmente consegue contar a mesma história 99 vezes de forma completamente diferentes em vários aspectos.

É um bom guia pra aspirantes a quadrinhistas, cineastas, roteiristas, escritores, montadores e donas de casa.
Aqui no Brasil,não tenho notícia se existe um grupo da Oubapo. Mas temos os nossos autores que se aventuram com os princípios das restrições e vão além da narrativa. O Laerte é um ótimo exemplo disso. Ele conhece como ninguém a estrutura da linguagem dos Quadrinhos e já experimentou diversos caminhos, conseguindo elevar a narrativa à estratosfera. O Rafael Sica também é um novo mestre da estrutura de tiras. Experimenta e vai além. A narrativa de Lourenço Mutarelli já desestruturou o modo como se contava Históras em Quadrinhos no Brasil, experimentando com o lado negro e com a sordidez da narrativa, colocando-a em linguagem de prosa nos balões de suas páginas.
Rafa Coutinho, na antologia “Irmãos Grimm em Quadrinhos”, publicada em 2007 pela editora Desiderata, contou a história da Branca de neve da maneira mais experimental e original que eu já vi – e já li muitas versões, pois me amarro em contos de fadas.

É como se você estivesse assistindo a um filme em que todas as cenas tem o mesmo tempo, montadas de uma maneira cadenciada, mostrando sempre apenas o mínimo porém necessário para o entendimento de cada cena. Usando artifícios como repetição e textos monossilábicos, Rafa Coutinho provou o sabor do poder da narrativa contando uma história já contada infinitas vezes e que pode ser contada de novo e ainda assim ser original.
Em 2006, o Gabriel Bá, o Fábio Moon, a Becky Cloonan, o Vasilis Lolos e eu tentamos fazer algo diferente em termos de narrativa. Fizemos uma revista independente entitulada “5″- já pedindo perdão pela auto-referência. Não foi proposital, mas instintivamente nós também nos baseamos na idéia dos princípios das restrições e tentamos quebrar a narrativa de alguma maneira. A “5″ conta histórias inventadas sobre nós mesmos, um dia imaginário em que um autor deveria contar sobre o outro autor, intercaladas e lincadas por simbolismos e referências das próprias histórias. Nós ganhamos o Eisner Awards – o subtitulado Oscar dos Quadrinhos – com essa publicação. Não acho que ganhamos esse prêmio porque fizemos algo experimental, até acho que os jurados do Eisner não deram muita bola pra isso, mas o certo é que experimentamos algo diferente do que fazíamos. E como ninguém aqui gosta de viver no passado, vamos de volta pra prancheta pois ainda existem infinitas maneiras de se contar histórias, e eu quero contar algumas delas.
Abraço,
R. Grampá
28 Comments so far
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Caramba, eu não conhecia toda essa história! Animal mesmo, viajei no post.
Comment by Mário April 17, 2009 @ 1:18 amExperimentar é sempre muito bom. O que eu percebo é que a maioria dos artistas acaba relaxando depois de uns anos, ficando numa zona de conforto eterna. Gostei do artigo!
Existe uma oubapo latino-americana, embarcando os autores inclusive de língua portuguesa. O endereço é este: http://tahipo.blogspot.com/ , que é chamado de Taller de Historieta Potencial.
Comment by Ricardo Sanchez April 17, 2009 @ 1:48 amGrande notícia! Valeu Sanches!
Comment by Rafael Grampá April 17, 2009 @ 1:51 amdepois de 3 meses enrolando, enviei no fds um texto q escrevi a partir de uma entrevista com o editor da asso, fundador do oubapo.
Comment by mc April 17, 2009 @ 1:52 amano passado, apresentei um trabalho sobre o oubapo num simposio de literatura.
sou APAIXONADA por isso.
Bacana! No filme Helvetica http://www.helveticafilm.com/ um dos designers entrevistados Wim Crouwel fala tambem sobre isso… trabalhar com limitacoes… e ele comenta que simplesmente nao consegue mais trabalhar se nao lhe derem limitacoes… o grid que ele auto impoe ao seu trabalho faz com que aquela seja a sua arena e eh la que ele faz o seu jogo. Recomendo.
Abracos.
M.
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Comment by Mauricio Pommella April 17, 2009 @ 3:01 amOlá:
Meu nome é Berliac, eu sou o coordenador geral do Workshop Latino-Americano Comic potencial.
Durante mais de um mês eu passei um convite para os participantes do projeto, mas infelizmente eu não conheço muitos escritores do Brasil.
Todos estão convidados a porticipar do projeto Oubapo Latinoamerica.Para ver as condições visite nosso website:
http://tahipo.blogspot.com
(desculpe para o meu muito pobre Português, estou usando o Google Translator!).
Comment by Berliac April 17, 2009 @ 3:06 amGrampa, existe uma versao da america latina, http://tahipo.blogspot.com/
E de brasileiro participa apenas eu e o DAniel Bueno.
Comment by tiago April 17, 2009 @ 3:13 amPor coincidência, li 676 Apparitions essa semana. É genialmente louca.
E, cara, se pudesse, passaria o dia falando da HQ do Coutinho com a Branca de Neve. A primeira vez que li, voltei e reli mais umas 3 vezes. Não acreditava no que tava vendo, de tão sensacional.
Comment by ericoassis April 17, 2009 @ 3:44 amAh, e não esqueceria, nessa turma experimentalista (e experimentalista boa, porque há vários sem direção), do Anders Nilsen! Se ainda não leu, pegue tudo que puder dele. Principalmente DONT GO WHERE I CANT FOLLOW, que é arrasadora, e uma historinha que ele fez pra MOME que me causou a mesma coisa que a HQ do Rafa Coutinho. Tem um trecho aqui: http://madinkbeard.com/blog/archives/anders-nilsen-in-mome
Comment by ericoassis April 17, 2009 @ 3:52 amCara… acho que Will Eisner usava um pouco dessa técnica sem se dar conta!
Comment by Bruno Ilex April 17, 2009 @ 6:20 amah… Até fiquei meio deprê… Queria mais tempo livre prá também poder brincar com isso também…
Comment by DS April 17, 2009 @ 10:45 amo pior é que tem gente que enxerga o experimentalismo do Laerte, por exemplo, como perda de rumo. vou atrás hoje de Irmãos grimm em quadrinhos – compra adiada desde o lançamento.
Comment by lielson April 17, 2009 @ 3:17 pmFala Érico! Adoro o Nilsen! Abraço!
Comment by Rafael Grampá April 17, 2009 @ 4:20 pmFala Berliac! Muito bacana saber que tem gente explorando os limites por essas bandas. Imagino que a Tahipo seja inspirado na Oubapo, e não o braço da Oubapo latino americana, certo? Vou deixar teu convite aí nos comments pra quem se interessar.
Comment by Rafael Grampá April 17, 2009 @ 4:26 pmE vale lembrar que a Oubapo não é um movimento nem uma instituição. É um grupo de estudos, de discussão, uma forma de pensar, explorar e brincar. Brincadeira pra gente grande.
Comment by Rafael Grampá April 17, 2009 @ 4:28 pmLeio quadrinhos desde sempre, faço quadrinhos desde sempre, conheço um trilhão de gente que faz e aprendi outro trilhão de coisas úteis. Mas até agora não tinha lido sobre o que você escreveu e me foi muito útil, só reforçando o que eu já sabia de que não importa o quanto a gente estude, impossível chegar a um ponto em que não existe mais o que aprender e fico MUITO feliz quando descubro coisas novas, mesmo que historicamente não sejam assim tão novas. Abração e valeu!
Comment by Felipe April 17, 2009 @ 5:02 pmLegal, Felipe. Sim, históricamente não é nada novo, é um pensamento dos anos 60. Esse post eu fiz originalmente para o meu blog da MTV, que é um apêndice da minha coluna na TV, no Notícias MTV. Essa coluna é o único espaço para HQs em rede nacional na TV – acho eu – então, estou aproveitando pra soltar um pouco de informação decente sobre HQs pro público que assiste a MTV. Acho que nunca haviam falado sobre a Oubapo na TV aqui no BRasil, e por isso resolvi falar. Abraço!
Comment by Rafael Grampá April 17, 2009 @ 5:10 pmminha parada predileta do oubapo, de longe, é a seguinte:
http://www.tomhart.net/oubapo/archive/alphabet/daupo/index.html
fez parte do desafia “alphabet city”, que cada quadro tinha que ter correspondência com a sua letra do alfabeto. pra mim, é um dos exemplos claros que existem certos recursos narrativos próprios dos quadrinhos.
não sei se foi coincidência, ou se vc se inspirou nisso, mas o matt madden fez um post sobre o oulipo um dia antes de vc.
tem um livro do oulipo lançado no brasil que é bacana: “a coleção particular” do georges perec
Comment by andrei April 17, 2009 @ 5:36 pmvivendo, lendo e aprendendo…
axo hq uma arte infinita, pois realmente se pode fazer tudo com ela. e sobre o q escreveu serviu pra dar ainda mais infinidade a essa arte
parabéns!
Comment by PJ April 17, 2009 @ 5:45 pmUm bom exemplo de experimentação da linguagem de web comics. Brincando com os limites da internet.
http://www.iamnotanartist.org/index.html
Comment by Rafael Grampá April 17, 2009 @ 10:21 pmMuito Massa, é otimo ver esse tipo de coisa, vi um exemplo muito bom de umas experimentações em um livro do Scott McCloud. Umas perguntas: onde consigo o HQ do Rafa Coutinho e a “5″ que você citou? Ah e também a Samba, que ouvi alguns bons comentários!
Comment by Rafa Santos April 18, 2009 @ 3:35 amMuito Obrigado, um abraço.
Bem interessante, não conhecia esse “movimento” por assim dizer, mas parece ser mesmo uma boa forma de exercitar a narrativa… Digo, básicamente seria só estruturar um arco de idéias rapidamente e ir elaborando formas mais fluídas de apresentar…
Sinceramente acho que isso é melhor para um roteirista/desenhista que já consegue imaginar a história pro completo, como escritor (E somente escritor, meu traço e m#$@ em um papel higiênico tem o mesmo valor artístico), é um pouco diferente, já que ai vai mais da simbiose com quem quer que queira desenhar o que escrever, então é uma parceria mesmo, mas acho algo bom de se desenvolver em ambos os lados…
Comment by Antonio Tadeu April 18, 2009 @ 5:18 pmRafa, se você der um google em qualquer uma dessas HQs que eu citei, você vai achar! Abs
Comment by Rafael Grampá April 18, 2009 @ 9:02 pmFoda o post, valeu por mostrar isso. Deu curiosidade de ver o álbum do Madden. Nem sei se é bom tentar fazer algo assim só por fazer, o resultado pode ser desastroso, mas no mínimo, é um exercício extremamente enriquecedor.
Comment by Henrique Rodrigues April 21, 2009 @ 1:51 pmVi a materia na MTV.
Sim. Aquele é o unico espaço que se fala em HQ na TV aberta. Achei demais a materia, que além de me acrescentar, e muito, me fez ver o potencial dos quadrinhos europeus e o quanto será interessante pra mim ir atrás deles.
Sempre achei muito interessante a possibilidade de pensar em novas formas de narrativa. O quadrinhos oferecem isso de uma forma bem clara e de fácil percepção.Penso em algum dia usar desse artifício,mas acho que este é mais interessante no decorrer da historia, em algum momento especifico da trama, do que em toda ela. Levar esse pensamento por toda historia pode limitar o quadrinho a leitores experientes, e isso pode até ser ruin.
Abraço! e continue o ótimo trabalho na MTV!
Comment by Rafael Pereira April 24, 2009 @ 5:28 amEu queria fazer uma história que fosse o equivalente narrativo as imagens do Escher… Mas acho que ainda está um pouco longe da minha capacidade hahaha
Comment by Antonio Tadeu April 24, 2009 @ 7:25 pmA idéia é muito boa, mas gostaria de ver um grupo aqui no Brasil realizar isso e – o que é mais difícil – ter público.
O problema é que aqui as pessoas valorizam demais os desenhos e a fama dos personagens e acabam se esquecendo do resto.
Para aumentar as referências do texto, eu citaria Antonio Amaral, que até onde eu conheço, é o único cara no muno que faz HQ abstrata e a leva dos quadrinhos poéticos como Gazy Andraus, Henry Jaepelt, Edgar Franco etc.
Comment by Alexandre Manoel April 27, 2009 @ 6:26 pmFala Rafael, blz?!
Comment by Andrei Bressan June 30, 2009 @ 9:25 pmcara, nao to achando esse livro “six hundred” em lugar algum… Porra, voce tem alguma dica? Na amazon, ja fiz 3 tentativas, mas nenhuma rolou…
Valeu!
Bração